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«Eu Tenho o Poder»: Episódio 18 - «Tudo pode acontecer»

Abri os olhos e o sol já entrava pela janela. A Layla estava sentada a olhar para mim e sorriu na tentativa de me pôr calma.
Lisa - Que horas são? Ele já saiu da cirurgia?
Layla - Calma! São 6h43. E, sim, ele saiu há uns trinta minutos atrás. Foi uma cirurgia complicada, mas correu tudo bem, e os médicos estão à espera das primeiras reações.
Lisa - Preciso de vê-lo.
Layla - Tu precisas de tomar um banho e vestir esse lindo vestido que a Natalia trouxe. A Rudy chegou há bocado e está na sala de espera com o Riley e a Lauren.
Lisa - Ok, vou preparar-me.
Fiquei durante trinta minutos a chorar enquanto a água escorria pelo meu corpo completamente desencorajado. Soltei um ligeiro sorriso quando vi o outfit que a Natália preparou para mim: um vestido branco de manga curta da Victoria Beckham com uma jaqueta de malha com lantejoulas da St. John em branco e, para combinar, saltos altos brancos da Manolo Blahnik e uma mala Saffiano duplo branca da Prada. Soltei os meus cabelos e fui com a Layla até à sala de espera. Assim que abracei a Ruby, fiz um esforço enorme para não borrar a maquilhagem com lágrimas.
Ruby - Como é que estás?
Lisa - Ainda estou à espera de acordar e perceber que é apenas um pesadelo. Onde está a minha sogra?
Ruby -  Ficou a cuidar dos miúdos. O Ethan está fora do país, mas ela está bem.
Lisa - Há novidades?
Ruby - A enfermeira Sandra passou aqui há bocado e ainda não tem novidades.
Layla - Lisa, tens que ir fazer o comunicado.
Lisa - Ok, vamos. Até já, Ruby!
Ruby - Até já, querida!
A Layla levou-me até a uma sala onde irão preparar-me para enfrentar aquele motim da imprensa lá fora.
Riley - Bom dia, Lisa!
Lisa - Bom dia, Riley!
Riley - Estás pronta?
Lisa - Sim!
Riley - Ok, precisas apenas de dizer algumas coisas. Dois minutos, no máximo.
Lisa - Está bem! Vou dizer apenas o que sabemos.
Riley - Achamos melhor. O povo que ouvir que ele está bem e que nada demais aconteceu.
Lisa - Eu não vou mentir, Riley. O povo merece saber a verdade.
Riley - Não, Lisa! O povo quer acreditar no que quer ouvir. Por isso deves dizer que a cirurgia correu bem e que o Oliver está a reagir bem e, em poucos dias, estará de regresso à campanha.
Lisa - Eu não vou conseguir mentir em rede nacional para todo o mundo.
Riley - Podes ter a certeza que vais. Tu és uma Thomas e os Thomas conseguem tudo que querem.
Lisa - Eu já disse que não vou fazer isso.
Riley - Tens noção que com o acontecimento de ontem, estamos à frente das sondagens com 55% dos votos, o que nos faz vencer a eleição logo na primeira volta. Tens a noção disso? Por isso, pára de dizer que não consegues. Tu serás a próxima primeira-dama dessa nação. Por isso agradecia que começasses a agir como tal e enquanto o Oliver não recuperar, tu serás a líder. Tens que nos guiar à vitória sem ele!
Lisa - Tu és tão egoísta. Só pensas na política. Ele é o meu marido. Estou-me nas tintas se estamos na frente ou não. Acho que é a altura de desapareceres daqui!
Riley - Achas-me egoísta por querer exatamente o que o Oliver quer? Achas que não quero que ele melhore? Ele é da minha familia, sangue do meu sangue, ele é como um irmão para mim e tudo que eu mais quero é vê-lo de pé, mas enquanto isso não acontece, eu sei que ele quer que nós façamos o trabalho que ele deixou e se não queres fazer isso pela campanha, faz pelo Emmanuel que morreu por ti!
Lauren - Párem os dois! Isso já foi longe demais! Temos todos o mesmo desejo: ver o Oliver recuperado e continuar com a campanha.
Layla - A Lauren tem toda razão e não tem mal nenhum fazeres o que o Riley diz à Lisa. O objetivo não é mentir ao povo, mas sim dar esperanças para não desistirem já.
Lisa - Desculpa, Riley! Vou fazer como dizes.
Riley - Desculpas aceite! Estamos na mesma equipa, Lisa!
Lisa - Eu sei. Agora vamos lá acabar com  sofrimento do povo.
Acompanhados de dez agentes da Quaniama, eu e o Riley descemos. Assim que se abriu a porta principal do hospital, todas as câmaras fotográficas e de filmar viraram-se para mim. À minha frente tinha um pódio com quatro microfones e foi para lá que o Riley me conduziu e colocou uma folha com um pequeno discurso que, pela letra foi provavelmente o Aram que escreveu. O Riley fez-me um sinal com a cabeça e percebi que era a deixa para começar a falar.
Lisa - Bom dia a todos! Estou aqui para agradecer aos inúmeros comentários de apoio a mim, à minha familia e, principalmente, ao meu marido que, graças a Deus, encontra-se fora de perigo, depois de passar toda a madrugada no bloco operatório. O acontecimento lastimável e inacreditável que aconteceu na noite de ontem está a ser investigado pelas autoridades nacionais e sabemos, desde já, que o povo de Lampula nada tem a haver com o sucedido. Para terminar, as minhas orações vão para a família do agente Emmanuel, que infelizmente perdeu a sua vida ontem para salvar a minha vida e a do meu filho. Serei eternamente grata a ele. O agente Emmanuel era um homem exemplar, trabalhou ao serviço do Presidente Jacó e, posteriormente, esteve ao serviço do meu marido a quem protegeu com honra e dignidade e não será esquecido. Ligarei a seguir para a família do agente Emmanuel para prestar as minhas sinceras condolências. Muito obrigada a todos e que Deus esteja connosco neste momento delicado.
O Riley tirou-me dali e levou-me para o elevador.
Lisa - Como me saí na minha primeira declaração oficial?
Riley - Muito bem! Melhor do que imaginei. Tens bastante potencial para isso. Vais dar uma bela primeira-dama.
Lisa - Deus te oiça.
Quando saímos no quinto andar, a Layla e a Lauren estavam a consolar a Ruby e ouviam atentamente o que o doutor ia dizendo. Antes mesmo de nos aproximarmos ja me caíam as lágrimas.
Riley - O que aconteceu, Dr. Henry?
Doutor - O que eu estava a dizer à senhora Ruby é que tivemos uma cirurgia complicada. Infelizmente, o doutor Thomas encontra-se em coma com alto risco de morte.
Senti o meu corpo frouxo e a chorar. O Riley teve que me agarrar para não desmaiar. As últimas forças que me restavam serviu apenas para fazer uma pergunta ao médico.
Lisa - Como é que isso aconteceu, doutor?
Doutor - O doutor Thomas sofreu várias hemoragias durante a cirurgia e uma das balas fez uma ligeira perfuração no pâncreas.
Riley - Diga-me que há solução para isso?
Doutor - Estamos a dar o nosso melhor, senhor. O estado é crítico, mas tudo pode acontecer.
Riley - Obrigado, doutor! Peço-lhe que isso não saía do hospital. Não queremos que os jornais fiquem a saber.
Doutor - Fiquem descansados.
Lisa - Eu quero vê-lo, por favor.
Doutor - Apenas três pessoas e apenas cinco minutos.
Ruby - Eu vou com a Lisa. Riley, vens?
Riley - A Lauren vai no meu lugar.
Lauren - Obrigada!
Quando abri a porta do quarto, o meu coração foi a baixo de ver o meu marido ligado a tantas máquinas, completamente inanimado, pálido e enfraquecido deitado naquela cama. Procurei a cadeira mais próxima e sentei-me com as mãos na cabeça e a chorar que nem um bebé. A Lauren e a Ruby vieram reconfortar-me.
Doutor - Por favor, senhoras. Têm de se retirar.
Lisa - Eu não quero ir!
Ruby - Por favor, doutor. Deixe-a ficar aqui mais um pouco. Nós as duas saímos.
Doutor - Está bem. A senhora Lisa pode ficar.
O doutor saiu acompanhado da Ruby e da Lauren. Demorou alguns minutos mas ganhei coragem e olhei ao meu marido, tão frágil como nunca imaginei lhe ver. Deu-me uma dor tão grande dentro de mim. Agarrei delicadamente a mão dele e encostei a minha cabeça.  Passados alguns largos minutos, o Riley abriu a porta do quarto para me chamar. Assim que saí do quarto, vi o tio Isaac a quem fui dar um abraço.
Lisa - Tio Isaac!
Isaac - Olá, minha filha. Como está?
Lisa - A aguentar.
Isaac - Não te preocupes. Vai dar tudo certo. Trouxe comigo o General Jean-Paul Beauvoir.
Assim que ouvi o nome, lembrei-me logo de quem se tratava. O meu pai falou muitas vezes do General Jean-Paul Beauvoir, diretor da FDNA (Força de Defesa Norte-Africana) e da BO (Bloco Operacional - Polícia Federal). O general é filho de pai francês e mãe norte-africana. Foi fuzileiro das forças armadas durante vinte anos, onde ganhou a patente de general.
Lisa - Boa tarde, general!
Jean-Paul - Boa tarde, senhora! Sinto muito...
Lisa - Muito obrigado
Jean-Paul - Recebemos recentemente indícios de que está a ser preparado um ataque aqui no hospital. Vim aqui para levar-vos a si e ao doutor Oliver em segurança para Union, imediatamente.
Lisa - Faça o que for necessário para tirar o meu marido em segurança dessa cidade.
Jean-Paul - Assim farei, senhora.

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