
Coimbra, 4 de fevereiro de 2001.
Jacinta, meu amor,
Hoje encontro-me esperançoso, como se uma força da natureza apoderasse de mim. Acreditas que estava a caminho de casa a sorrir feito tolo e fui parado por uma velhota na Praça da República. Quis saber o motivo de tamanha felicidade e então comecei a falar de ti, dos teus olhos rasgados e do teu sorriso largo e vivo, das tuas covinhas de menina e como tudo isso te faz parecer a mulher mais feliz e bonita do planeta.
Vi nos olhos da velhota uma alegria e esperança no nosso amor que pedi-lhe o guardanapo que ela carregava e estou aqui a escrever nele essa carta. Lembro-me do primeiro dia que te vi, tu a andares de um lado para o outro no quintal da tua tia, e lembrei-me que nunca te disse que tens um andar de menina cansada depois de brincar no recreio e andar sem vontade para a sala de aulas.
Quero contar-te que, hoje ao almoço, enchi-me de coragem e provei fígado - Deus me livre que nunca mais volto a comer, sei que adoras um bom fígado, mas fico-me pela feijoada que estou melhor servido.
Os dias sem ti têm sido tão enfadonhos e tristes que quando chega à noite fico de tal forma ansioso, porque sei que vou poder dormir e sonhar com a tua voz a chamar o meu nome, enquanto corremos nas praias desertas de Cabo Ledo.
Lembro-me bem do sonho de ontem: estávamos os dois ao lado da cabana laranja do resort do senhor Alberto lá no Cabo, onde depois de um suspiro tímido ganhei coragem de beijar-te.
Não imaginas a minha alegria ao acordar, mas que rapidamente trouxe a tristeza de ver que não estavas ao meu lado, a 6 mil quilómetros de distância.
Termino então aqui os meus desabafos, pois já não tenho espaço no guardanapo, mas vou já comprar um envelope e envio-te. Vais desculpar-me, mas terei que enviar a carta nesse mesmo guardanapo, assim poderás sentir e ver o calor das minhas mãos nele.
Do teu ridículo favorito,
José.
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