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«A Seleção»: Episódio 6 - «Lord Galla»

Acordei com a voz da Jane a anunciar que a minha mãe estava a chegar à Star Island, mas ignorei ao máximo possível o que ela dizia, até que se aproximou do meu ouvido e contou-me baixinho "A Katarine está furiosa, já sabe que deste dinheiro ao teu tio, prepara-te".
Após ouvir isso, saltei com a mesma rapidez de um vampiro e fui pôr-me apresentável para receber a senhora Alfa da família Ellis. Sentado à mesa do pequeno-almoço, ouvi barulho de pessoas e assim que me levantei, vi a Carolyna correr para abraçar-me e logo atrás dela e com cara de poucos amigos, a minha mãe caminhava elegantemente até onde eu me encontrava.

Carolyna - Olá, mano mais velho!
Kevin - Olá, pequena! Não sabia que também vinhas.
Carolyna - A general mandou-me vir para o evento de hoje à noite.
Kevin - Bom dia, mãe!
Katarine - Bom dia, Kevin Wilson Ellis!
Kevin - Porque está tão chateada?
Katarine - Porra, Kevin! Tu fizeste outra vez o que não devias. O teu tio é um miserável e eu pensei que soubesses entender isso.
Kevin - Tu estás chateada por causa disso? Quantas vezes afirmaste que a família vem em primeiro lugar independentemente do que aconteça. Eu fiz a minha parte, mãe, e não é por meia dúzia de milhões que iria virar as costas a todos os bons momentos que tivemos em família. Todos os dias de ação de graças nos Hamptons, todos os jogos dos Giants, todos os jogos dos Knicks e todos os dias de Natal que passámos todos juntos. Nós somos família, devemos cuidar uns dos outros.
Katarine - Tu és boa pessoa, filho! Mas não te deixes enganar por aquele nojento do teu tio. Ele é uma pessoa horrível e só se interessa por dinheiro.
Carolyna - Mãe, como o Kevin disse, nós somos famílias e óbvio que temos problemas. Porque não organizas um jantar especial como fazias antes e vamos todos conversar como pessoas civilizadas?
Katarine - Está bem! Vou vos dar uma última oportunidade para verem como é o vosso tio.
Carolyna - Ótimo, mãe! Vais ver que vai ser divertido. Agora vamos comer que estou com fome e ainda tenho que comprar um vestido para hoje à noite.
Kevin - Eu preciso ir agora buscar a Alika. Mana, encontramo-nos no Bar Harbour.
Carolyna - Ok! Não te atrases! Daqui a 30 minutos, estou lá!
Kevin - Beijos, meus amores!

Estacionei o meu Bentley Continental em frente ao portão da mansão das meninas e aguardei até ver a mulher mais linda que alguma vez vi na vida caminhar em direção ao carro. A Alika é tão rara como a Monalisa, com cabelos lisos, longos e castanhos, com uma altura mediana e corpo esbelto, com lábios finos e pernas compridas. O seu olhar sedutor ofuscou totalmente a Dashiki Dimepiece Los Angeles que trazia.

Alika - Bom dia, Kevin!
Kevin - Bom dia, menina Alika! Dormiste bem?
Alika - Vou ser sincera: quase nada! Passei a noite super ansiosa pelo dia de hoje.
Kevin - Porquê?
Alika - Beijaste a Jessica, foste com a Sasha para Nova Iorque, nem quero imaginar o que fizeram o fim-de-semana todo, por isso tenho que fazer algo em grande para não me mandares embora.
Kevin - Que tal focares apenas no facto de seres linda e ambos amarmos arte e esqueceres as outras?
Alika - Primeiro tens que prometer que não vais mandar-me embora...
Kevin - Eu prometo! mas agora vamos encontrar a minha irmã que esta à nossa espera, pode ser?
Alika - Sim, senhor.

Quando chegamos a Bar Harbour, fomos quase a correr para a Valentino onde a Carolyna esperava por nós.
Kevin - Desculpa. Estamos atrasados.
Carolyna - Tu és linda, miúda! Como é o teu nome?
Alika - Alika Yakubu e obrigada pelo elogio. Tu tambem és linda.
Carolyna - Kevin, casa com ela, por favor! Quero ter sobrinhos perfeitos e vocês combinam tão bem!
Kevin - As compras deixaram-te meio avariada.
Carolyna - Cala-te que eu sei o que digo.
Alika - Obrigada pelo apoio, futura cunhada!
Carolyna - Definitivamente eu adoro-te, Alika!
Kevin - Vamos focar-nos na roupa, pode ser?
Carolyna - Enquanto esperava por vocês, dei uma volta por todas as lojas que interessavam e já comprei o meu vestido, mas separei três lindos Valentino. Espero que gostes, Alika!
Alika - Mostra-me!
Carolyna -  Este vestido de alta costura Valentino, profundamente mergulhado, com plissados ​​delicadamente dobrados é perfeito para red carpet e além disso a cor branca vai combinar muito bem com o teu tom de pele.
Alika - Amei! Amei! Amei! Quero!
Carolyna - Calma! Ainda falta dois e esse segundo, é um Valentino que conta com um conjunto de alças da marinha e com um total contorno da silhueta e lantejoulas de ouro padrões de estrela A-line.
Alika - Tão lindo! Adoro! Parece vestido de Cinderella.
Carolyna - Tu és a Cinderella. O último é de cortar a respiração. Esse é da coleção Sala Bianca Valentino, somente em branco igualzinho ao que a Solange usou no seu casamento. Resta um nos Estados Unidos e custa 5 mil dólares.
Alika - Deixa pensar! Óbvio que eu quero esse! Desculpa, Solange, mas esse é lindo demais para eu deixar aqui!
Carolyna - Eu sabia que ias escolher esse mas como eu sou uma boa cunhada, podes levar também o primeiro para usares na inauguração da minha marca, daqui a duas semanas.
Alika - Obrigada, és uma fofa!
Kevin - Vamos logo pagar e sair daqui. Já estou cansado e com fome! Que tal irmos almoçar?
Carolyna - Está bem, vamos.
Chegámos ao Restaurante Prime 112, na Ocean Drive, cheios de animação. A Alika e a Carolyna parecem melhores amigas, de longa data, que se reencontraram agora.
Carolyna - Tu és de Lagos, certo? O que fazes por lá?
Alika - Sim, sou. Eu trabalho como advogada há 3 anos.
Kevin - Isso é fantástico! Onde te formaste?
Alika - Universidade de Harvard.
Carolyna - A sério? Conta-me a tua história. Como saíste de Lagos para estudar em Boston?
Alika - Vou vos contar um segredo: o meu pai é o presidente da Nigéria.
Kevin - Tu és filha do presidente Mahamadou Diarra? O teu nome é Yakubu?
Alika - Sim! Eu uso o nome da minha mãe para evitar ser reconhecida.
Carolyna - Filha de um presidente e não quer ser reconhecida?! Porquê?
Alika - Ser filha de um presidente africano num país com imensa desigualidade não é fácil. Eu prefiro ser anónima e ajudar o meu povo a conseguir alguma justiça e se estou viva até hoje é porque sou a filha querida deles porque com a quantidade de protestos e casos que faço contra ele, se não fosse filha dele, estaria morta.
Kevin - Estou surpreendido! Tu és uma ótima mulher.
Carolyna - Eu quero muito que esse idiota do meu irmão te escolha no fim desse concurso.
Alika - Se ele me escolher, vou adorar fazer parte da vossa família.

Entrámos na red carpet da Lord Galla logo após a minha mãe e a Carolyna passarem. Todos os fotógrafos viraram-se para mim e para a Alika e não era de admirar porque ela está incrivelmente linda e glamourosa dentro desse Valentino. No fim da red carpet, a Amber, uma repórter da NUC, que cobria o evento pediu uma pequena conversa para os telespectadores.
Amber - Senhores telespectadores, este é o Kevin Ellis, o CEO  do Grupo ellis e Vice-presidente da Fundação Lord Galla. Tu estás magnífico, Kevin!
Kevin - Obrigado, Amber! Apesar de estares a elogiar só porque sou teu chefe.
Amber - Óbvio que não! Quem é esta linda senhora que te acompanha?
Kevin - Alika Yakubu, uma magnífica advogada e amiga.
Amber - Esse evento foi criado há 10 anos atrás pela Ellis Group com o objetivo de ajudar os mais pobres de todo o mundo e sobretudo crianças. Essa paixão que a tua mãe, a presidente da fundação Lord Galla, teve quando a criou, de certa forma passou para ti e para Carolyna...
Kevin - Sim, claro! Sem dúvida nenhuma! Quando se vive num ambiente de ajuda e bondade, acabamos por nos moldar a isso e penso que todo o trabalho que a minha mãe fez até hoje faz com que tanto eu e a minha irmã queiramos fazer também e estamos a trabalhar nesse sentido.
Amber - Quais são as expectativas para essa noite?
Kevin - No evento do ano passado, em Los Angeles, conseguimos uma doação que rondava os 4 milhões de dólares. Este ano, a expectativa é elevar esse valor para que a fundação tenha recursos suficientes para ajudar ainda mais aqueles que precisam.
Amber - Muito obrigado, Kevin, e bom evento!
Kevin - Obrigado e igualmente, Amber!

Caminhamos até à nossa mesa onde já se encontrava a minha mãe, a Carolyna, o Omar e a sua esposa e o Dari. Avistei à distância o meu tio Mark numa das mesas e sentei-me. A Alika fez uma pergunta baixinho no meu ouvido.
Alika - Conhecias a repórter?
Kevin - Sim, foi a minha namorada durante três meses, no ano passado.
Alika - Eu percebi.

Para dar início ao evento e como é habitual ouvimos o discurso da presidente da Fundação, Katarine Wilson Ellis, que como sempre fez um maravilhoso discurso de 45 minutos e deu autorização para servirem o jantar. Ao fim da sobremesa chegou a altura do vice-presidente subir ao palco e fazer um breve discurso antes de começar a doação.

Kevin - Boa noite a todos! Espero que tenham gostado do jantar, porque terão que pagar no mínimo 5 mil por ele, sem contar com a sobremesa. Estou a brincar, não fujam já. Hoje quero fazer algo diferente, hoje quero que ouçam alguém que vive e convive com o tipo de pessoas que nós tentamos ajudar ao longo desses dez anos e espero que isso ajude a amolecer os vossos corações e a largarem os cheques com facilidade. Essa senhora que chamarei ao palco não sabe que irei chamá-la, nem eu sabia até ouvir falar dela hoje de manhã. Senhoras e senhores, dêem as boas-vindas a uma advogada de Lagos que tenta fazer a diferença, Alika Yakubu.

Ela olhou para mim em choque sem saber o que fazer. Pisquei o olho e a Carolyna pegou na mão dela e ajudou-a a achar o caminho para o palco. Assim que chegou ao pé de mim, falei baixinho no ouvido dela, para falar com o coração.

Alika - Boa noite a todos! O meu nome é Alika Yakubu, nasci em Lagos, Nigéria, há 27 anos. Sou formada em Direito pela Universidade de Havard e desde que nasci que essa é a primeira vez que estou prestes a fazer essa declaração. Vivi seis anos em Boston e nunca falei disso com ninguém, provavelmente por medo de ser julgada, ofendida, discriminada e posta de lado. O meu pai é um homem poderoso, muito rico, muito ambicioso e é o presidente da Nigéria há 37 anos. Chama-se Mahamadou Diarra. Eu recusei-me a usar o seu último nome. Não é por medo, mas sim por vergonha e nojo. O meu país é o mais rico de África e mais de 90% da população é pobre, mais de 50% vive nos campos, sem acesso a escolas, saneamento básico e cuidados de saúde. Podem achar isso hipocresia, como é que a filha do presidente, que nunca lhe faltou nada, vem falar de pobreza. Se pensam assim não deixam de ter razão. Eu nunca soube o que era pobreza até olhar na cara do meu pai e dizer-lhe que vou sair de casa e que não queria ter mais nada haver com a vida que ele levava. Fui viver para um apartamento minúsculo, sem eletricidade durante 3 meses, mas não voltei para a casa do meu pai muito pelo contrário. Ganhei coragem e fui pedir emprego como advogada e hoje vivo num apartamento minúsculo com eletricidade, promovo manifestações contra o regime do meu pai, luto pelos direitos da educação e saúde do meu povo e sou a mulher mais realizada e feliz porque comecei a valorizar a vida em vez de luxo. Comecei a valorizar o amor e o sorriso genuíno em vez de luxo. Muito obrigado por me ouvirem e não limitem-se apenas a dar dinheiro, tentem ir ver com os próprios olhos quem vocês ajudam.

Surgiu uma onda de palmas durante cerca de cinco minutos com toda a gente de pé e pude ver na cara de muitos, a vontade de chorar. A minha mãe deu um grande abraço a ela e agradeceu pelas suas palavras. No fim das doações verificamos um total a rondar os 10 milhões de dolares. Antes da noite terminar, ouve uma discussão feia entre a minha mãe e o meu tio Mark, porque ele fez uma doação de 1 milhão. Para alguém que me pediu dinheiro, como é que doa tanto dinheiro? A minha mãe não aguentou e foi questioná-lo e acabou feio com várias ameaças entre os dois, inclusive de morte, o que é bastante normal haver nessa família.

Fui deixar a Alika em casa. Ficámos durante alguns minutos a conversar antes de nos despedirmos.
Kevin - Mais uma vez, obrigado pelo que fizeste! Significou muito para mim.
Alika - Falei com o coração tal como disseste!
Kevin - Tu és uma grande mulher! Eu respeito isso!
Alika - Junta-te a mim e vamos dominar o mundo!
Kevin - Vou pensar nisso!
Alika - Então, por enquanto é um adeus e até à proxima.
Kevin - Eu prefiro um "até já".
 
No dia seguinte, depois de tomar o pequeno-almoço e falar com a minha mãe e a Carolyna, fui até ao escritório do meu tio Mark para o convidar para o jantar de ação de graças já que a minha mãe recusou-se a falar com ele até ao dia do jantar por causa da briga da noite anterior. Quando cheguei à empresa, vi uma cara nova que parecia ser um novo empregado. Ele entrou na sala da direção, sem bater à porta, e eu achei estranha aquela atitude. Perguntei à secretária: 

Kevin - Sandra, sabe quem é aquele senhor que entrou agora na sala do meu tio?
Sandra - Ah, o senhor que entrou é o Dr. Tom Bowz, o novo técnico de operações de vendas.
Kevin - Ok. Sandra, pode-me fazer um favor? Pode ir buscar um café, por favor?
Sandra - Claro que sim! Com licença.
 
Enquanto a Sandra foi buscar o café, eu aproximei-me da porta para ouvir a conversa. 
Mark - Aquilo que se passou, está enterrado.
Tom - Claro que não, Mark. Sabes que basta eu falar para a tua carreira ser destruída.
Mark - Já passaram 25 anos. Porquê agora esse ódio por mim?
Tom - Sabes porquê? Nos últimos 25 anos estive a tratar uma depressão porque...
 
Nesse momento, chegou a Sandra: 
Sandra - Aqui está o café, Dr. Kevin!
Kevin - Obrigado, Sandra!
 
Fiquei muito curioso para saber o resto da conversa. Cinco minutos depois, o Tom saiu da sala completamente alterado. A discussão, com certeza, tinha-se agudizado. Entretanto, bati à porta e entrei: 
Kevin - O que se passou aqui, tio? Andas à rasca de dinheiro e eleges um novo técnico de operações de vendas?
Mark - Kevin, eu preciso de sair. Agora não podemos falar.
Kevin - Mas...

O tio Mark estava completamente transtornado. Deixou-me sozinho na sala e eu aproveitei para tentar saber mais. Sentei-me na secretária e procurei informações desse tal Tom Bowz. Encontrei um currículo, aparentemente falso, porque dizia que o Tom tinha trabalhado desde 1990 até há pouco tempo numa grande empresa em Nova Iorque mas a conversa que tinha ouvido, o Tom esteve a tratar de uma depressão. Enquanto buscava mais informações, apercebi-me que uma gaveta da secretária está trancada. Uma empregada da limpeza bateu à porta e perguntou se podia limpar a sala. Eu acabei por deixar a sala sem saber mais nada...

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