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O Que Dizem os Meus Olhos #2: José Eduardo dos Santos


Prefácio:

“Esta é a minha última intervenção, na qualidade de Presidente do MPLA, função que, honrosamente, desempenho desde 21 de Setembro de 1979, quando, em circunstâncias alheias à minha vontade, fui escolhido pelo Comité Central do MPLA para substituir o falecido Presidente António Agostinho Neto.”

    Foram com essas palavras que o segundo presidente da nação angolana se despediu dos seus subordinados, frisando o que já há muito eu sabia. Acredito que nunca fora sua vontade ser Presidente de Angola, pois, tal proeza não lhe era nem possível visto pelos anos de experiência que tinha na altura, as probabilidades eram mínimas, mas o comité assim o quis como Presidente. Acredito que não fora sua vontade, mas acredito que lhe ficara no gosto de ser Presidente e desfrutar de todas as regalias que a posição proporciona.
    Quando me preparava para escrever este artigo, fiz a minha habitual pesquisa sobre o mesmo e, por desilusão, não encontrei nenhuma citação, mas encontrei uma artigo muito bem escrito por José Desencantado (pseudónimo) no site www.esquerda.net, em que não pude deixar de concordar com uma passagem que diz: “Quando era criança eu amava o presidente José Eduardo. Aos oito anos já era da OPA, mas na altura não percebia nada de política e de como gerir um país. Já havia fome, mas gostava de ver quando ele ia jogar basquete no pavilhão da cidadela e dominava a bola no centro do campo antes de começar uma partida. Gostava daquela carinha laroca de menino mimado e ingénuo, que lhe fazia parecer puro. Na altura, aquela imagem e o seu silêncio iludia facilmente a fome que já sentia e me fazia acreditar que o futuro estava seguro nas suas mãos ... Mas hoje, quando lhe ouvi dizer que a culpa da pobreza é do colono, e não do MPLA, para justificar a situação em que estamos, foi como se a venda que tinha nos meus olhos finalmente caiu e me permitiu ver pela primeira vez o Presidente José Eduardo dos Santos, que tanto amava quando era criança.”
    Tal como este autor, muitos de nós crescemos a amar e a idolatrar José Eduardo dos Santos. Hoje, através dos meus próprios olhos, irei falar do que sozinho aprendi sobre este homem que, sem dúvida nenhuma, positiva ou negativamente, escreveu o seu nome na história de Angola.


A minha infância:

    Durante a minha infância, digamos que também fui um fã do camarada Presidente dos Santos, embora não tão aficionado como o autor do artigo que citei no prefácio, mas considerava o nosso presidente – volto a dizer o nosso Presidente –, por tudo aquilo que via pela televisão e ouvia da boca das pessoas um herói. Sempre fui uma criança curiosa e atenta e, para além do futebol, um dos meus hobbies era ficar a ouvir as conversas dos mais velhos, e não me recordo de ter ouvido comentários contra ou que de certa forma fossem ataques à integridade moral de José Eduardo.
Acredito que eu, juntamente com os angolanos que fazem parte da minha faixa etária, somos da última geração que era obrigada todos os dias antes de começarem as aulas a cantarem o hino nacional no pátio da escola e o que me chamava mais atenção era o facto de na minha escola cantarmos virados para um quadro com o rosto do Presidente, que na maior parte das escolas públicas do país era como um elemento decorativo. Naquela altura a imagem do Presidente ou a bandeira do país que, por sinal, era e continua a ser da mesma cor que a bandeira do MPLA, um sinal do tipo de ideologia política que se vivia naquele tempo. 


    Eu fui uma criança muito ligada a Igreja Católica e lembro-me que um dos padres da minha paróquia, Sagrado Coração de Jesus em Malange, que era muito respeitado e severo, não passava um domingo em que nas suas homilias não falasse do estado político do país, quase sempre largando elogios ao Presidente e críticas à oposição. Isso mostra o Culto que era feito sobre o Presidente, uma espécie de vassalagem a Eduardo dos Santos.
    Uma das memórias mais marcantes que tenho do Presidente foi a sua chegada a Malange durante a campanha de 2007 (se não estou em erro), onde toda a população em forma de cordão humano, perfilou-se por toda a estrada que liga o Aeroporto à cidade de modo a receber e cumprimentar o herói nacional e o engraçado disso tudo é que nem sabíamos em que carro ele se encontrava, porque eram todos iguais e com os vidros fumados.

A minha adolescência:

    “Depois de uma eleição legislativa em 2008 (as primeiras eleições legislativas desde 1992), em que o MPLA venceu com 81,64% dos votos, o partido começou a elaborar uma nova Constituição, que foi introduzida no início de 2010. Nos termos da nova Constituição, o líder do partido com mais assentos no Parlamento torna-se automaticamente o presidente do país.”

    2008, o ano que posso caracterizar de duas formas: a primeira é que foi o ano em que Eduardo dos Santos mostrou ao mundo que existe democracia em Angola convocando eleições, 16 anos depois da anterior; a outra é que foi o ano em que Eduardo dos Santos percebeu que não controlava suficientemente o País e então decidiu mudar a constituição de modo a torná-la mais favorável a ele (o que não parece de todo um Ditador).


    Como é óbvio, em 2008, não tive o privilégio de votar, mas acompanhei o entusiasmo e fiz parte da festa das eleições, até porque ficámos vários dias sem aulas e terminámos o ano letivo mais cedo – o que me fez fazer papel de estúpido, uns anos depois, quando já eu vivia em Portugal e houve eleições e indignado perguntei se não haveria feriado por ser dia de votação – não me julguem, porque afinal eu era um puto que ainda não sabia o que é viver num país democrático.
    Ao contrário da adoração e a vassalagem que via prestarem ao Presidente em Angola, em Portugal aprendi que o mesmo não era assim tão popular e aí comecei a ver que por trás daquele homem sério, amante de desporto e engenheiro da Paz, escondia-se um homem frio, calculista e cruel, que foi capaz de tudo para se manter no poder por 38 anos e que ainda é capaz de dizer que nunca ambicionou o poder.

A minha opinião:
    É difícil humanizar um ditador, alguém que fez tanto mal e desgraçou tantas famílias, mas errar é humano, certo? Eu acredito que devem existir remorsos e arrependimento de algumas atitudes praticadas. Constantemente leio coisas escritas tanto pela Isabel dos Santos como pela Tchize, de como o pai delas é carinhoso, bondoso e blá blá blá...
    Mas a minha questão é: Será que ele não podia ser um pouco bondoso com o Povo? Elas podem estar a dizer a verdade. Angola é um país rico e antes da crise era dez vezes mais rico. A única coisa que realmente me chateia no Eduardo dos Santos é que conseguiu fracassar como ditador, até posso entender que teve que ser ditador contra a sua vontade, mas não consigo entender o porquê de não ter sido como o Kadhafi que mesmo sendo um homem horrível, desenvolveu a Líbia de tal forma que hoje, alguns anos depois da sua morte o povo sente a falta dele, não por ele em si, mas pelo desenvolvimento que durante 42 anos trouxe ao seu país.
    Outra pergunta que tenho é: Qual é o legado que Eduardo dos Santos deixou? E a resposta é simples e dura: NENHUM! Ou melhor, se formos mais otimistas, ele deu-nos a crise económica que, graças a Deus, foi a grande responsável por tirar a venda que há muito tapava os nossos rostos da realidade em que vivíamos.
    Algo que temos que entender é que não devemos odiar ou nos prendermos ao Eduardo dos Santos ou ao que ele representou. Tudo relacionado com ele é passado e devemos olhar para o futuro, aprendendo com os seus erros para tornarmos Angola um país melhor.


    Nesses 38 anos acredito que existiram coisas que devemos agradecer e dar os devidos créditos a Eduardo dos Santos, que apesar de tudo, é um homem que no início da sua vida política contribuiu de maneira positiva em benefício da nação e merece o devido respeito. Vamos mostrar ao mundo que o povo angolano sabe perdoar e de agora em diante vamos ser um exemplo do que é ser a nova geração de África.

Em conclusão,
Mais em cima fiz questão de acentuar a frase “Nosso Presidente, porque acredito que em algum momento das nossas vidas idolatramos e adoramos Eduardo dos Santos e consideramo-lo nosso líder, nosso presidente e não nos devemos envergonhar disso”.
Para aqueles que ainda estão na dúvida ou em negação de que Angola foi uma ditadura tenho alguns exemplos a partilhar: como estudante de política e apaixonado pela matéria, dedico muito tempo do meu dia a ler livros, artigos ou a ver palestras relacionadas com a matéria e não há muito tempo atrás, estava a ver uma palestra no TED, da Farida Nabourema, uma ativista togolês, que explicou como reconhecer se o teu país está em risco de se tornar uma ditadura ou no nosso caso se já foi uma ditadura.


  • Concentração de poder (Quando o poder é controlado por uma elite e existe apenas um homem forte que é apresentado como o herói ou salvador);
  • Propaganda (Ocultação de facto verídicos que passam a ser distorcidos. como exemplo, pintarem a oposição como os criminosos);
  • País altamente militarizado (O uso do poder militar para instigar o medo na população);
  • Crueldade Humana (Perseguição a quem e opõem ou se manifesta contra o Presidente);

Pedro Bento, em "O Que Dizem os Meus Olhos"

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