
Prefácio:
“Eu não defino o angolano pela cor, seja ele branco, preto ou mulato. Eu defino o angolano como aquele que ama Angola e luta por ela”.
Lembro-me como se fosse hoje: era uma noite pacata, para além das novelas da Globo ou da Record, nada de interessante acontecia. Perto da meia-noite, a minha mãe saiu do quarto e pediu que mudássemos o canal para a TPA1.
E foi naquele momento! Naquele momento em que eu vi através do olhar da minha mãe, carregados de incerteza e surpresa que algo de novo estava prestes a acontecer. Através daquele olhar vi a esperança e o início de uma nova Angola.
Jonas Savimbi estava morto! O mesmo que durante toda a minha infância e adolescência, era chamado de “monstro”, “assassino”, “criminoso de guerra” - até hoje é caracterizado como um Matumbo. O homem que todo o angolano preferia ver no caixão do que no lugar de Eduardo dos Santos.
Lembro-me como se fosse hoje: era uma noite pacata, para além das novelas da Globo ou da Record, nada de interessante acontecia. Perto da meia-noite, a minha mãe saiu do quarto e pediu que mudássemos o canal para a TPA1.
E foi naquele momento! Naquele momento em que eu vi através do olhar da minha mãe, carregados de incerteza e surpresa que algo de novo estava prestes a acontecer. Através daquele olhar vi a esperança e o início de uma nova Angola.
Jonas Savimbi estava morto! O mesmo que durante toda a minha infância e adolescência, era chamado de “monstro”, “assassino”, “criminoso de guerra” - até hoje é caracterizado como um Matumbo. O homem que todo o angolano preferia ver no caixão do que no lugar de Eduardo dos Santos.
Aquela noite pacata virou, num segundo, numa festa como se tratasse de um aniversário ou uma passagem de ano. Os vizinhos saíram à rua, as pedras saltavam para as chapas dos telhados para acordar os outros que dormiam e não sabiam da novidade. Hoje, envergonho-me disso… mas o que poderia eu fazer? Afinal, não passava de uma criança movida pela história que ouvia.
Finalmente! Finalmente, tenho a coragem de falar sobre o que me fora ensinado e do que aprendi acerca da vida deste homem que foi julgado, detestado, mas também amado e seguido com um herói. Hoje, Jonas Malheiro Savimbi, merece mais do que apenas ser visto como um herói nacional. Hoje, através dos meus próprios olhos, irei falar do que sozinho aprendi sobre este homem que, sem dúvida nenhuma, é um grande exemplo do que é ser patriota.
A minha infância:
Durante a minha infância, foram inúmeras as vezes que ouvi da boca de várias pessoas próximas e distantes de mim afirmarem que Savimbi teria dito que “o povo de Malange iria empurrar o comboio com os dentes”. Os meus tios chegaram a explicar que tal atrocidade proferida foi resultado da pomba branca lançada por ele não ter voado para o lado norte do país.
Como devem imaginar, eu, uma criança com menos de 10 anos, teria apenas duas opções para acreditar: Savimbi era um homem cruel por fazer tal ameaça; ou que Savimbi era tão determinado e corajoso por fazer um povo inteiro empurrar um comboio com os dentes.
Passado alguns anos, instalou-se em Malange uma onda de assaltos e mais uma vez os meus tios, dessa vez a favor do Savimbi, lançavam frases do tipo: “se o Savimbi tivesse vivo esses assaltos já teriam terminado”, “se o Savimbi tivesse vivo não existiam gatunos em Angola”, “o Savimbi dizia que se fosse presidente iria fechar as cadeias e abrir os cemitérios” ou “o Savimbi dizia que quem rouba, tem que lhe queimar as mãos, quem mata também tem que morrer”. Confesso que, de certa forma, esses comentários deixavam-me confusos porque não entendia muito bem se eles eram a favor ou contra do Savimbi.
Vivi em Angola durante dez anos e nunca vi escrito em nenhum livro o nome ou sequer alguma referência sobre Jonas Savimbi. Tudo que ouvia eram as atrocidades que supostamente o mesmo realizara e que fora o culpado de tudo que acontecera lá.
A minha adolescência:
“Todos os homens morrem. Mas só os homens fortes sobrevivem após a sua morte”.
2008. Mudei-me para Portugal e tive então o privilégio de conhecer a outra versão de Jonas Savimbi que nunca me contaram. Acredito que a maioria dos meus tios em Malange que ora eram a favor ou ora contra a Savimbi, não faziam ideia de que tanto Agostinho Neto como Savimbi haviam sido presos pela PIDE (Polícia Política Portuguesa entre 1945 e 1969) quando lutava pela independência de Angola face aos portugueses.
Lembro-me vagamente de ler num dos livros de história do 8.º ano que tanto Neto como Savimbi haviam pertencido ao mesmo grupo de estudantes angolanos em Portugal, onde possivelmente nascera a amizade dos dois. Aprendi também através das aulas de História em Coimbra que Savimbi fugira para a Suíça onde se formou e começou a sua luta por Angola.
Já no meu tempo de Secundário em Lisboa, fiquei por várias vezes mesmo depois da aula a ouvir histórias da minha querida professora Maria Reis - uma apaixonada pelo país africano - de como Savimbi era inteligente e um verdadeiro estratega político.
Depois de estudarmos o fim da era colonial portuguesa em Angola, resultando então na independência, consequência da guerra que começara em 1966, segundo a UNITA, e então a sua proclamação a 11 de novembro de 1975. Os livros portugueses destacam três movimentos políticos responsáveis desta conquista: FNLA, MPLA e UNITA.
Voltando a uma das minhas conversas com a professora, que argumentava ferozmente de que a culpa da Guerra Civil teria sido culpa da forma como os portugueses entregaram o país aos angolanos, de certa forma ilibando Savimbi das culpas. Nesta época aprendi também a importância do acordo de Bicesse, que visava um cessar-fogo entre MPLA e UNITA, que fracassado deu lugar a um novo acordo, o de Lusaca que resultou da recusa de Savimbi a vice-presidência do governo de unidade nacional.
Segundo ouvi dizer, anos antes de sair de Angola, Savimbi recusou ser vice-Presidente de José Eduardo dos Santos, pois achava uma ofensa ser subordinado de um fedelho que tinha caído de para-quedas na presidência e nem sabia sequer o que é combater nas matas.
Sendo angolano e o único numa turma de brancos e que não ligavam a mínima para a história de Angola, e cada vez que tocássemos nesse assunto, olhavam para mim como se eu soubesse de tudo, comecei de certa forma a sentir-me envergonhado e foi então que decidi começar a conhecer a história do meu país. Inocentemente a de Jonas Savimbi parecia-me a mais atrativa, muito embora porque existem mais matérias disponíveis sobre ele do que do presidente que estava no poder, José Eduardo dos Santos, o que de certa forma deixou-me curioso por entender o que há de tão especial nesse homem que é considerado um “criminoso de guerra”.
A minha opinião:
“Acredito que amanhã os angolanos hão-de entender o real motivo da minha luta. E neste dia, homens e mulheres da minha pátria, letrados ou não, hão-de caminhar em busca da verdadeira paz, em busca da verdadeira democracia. Terão a coragem de enfrentar o Regime. Porque não há na história da humanidade um governo que pode oprimir um povo eternamente.”
Sou um fã assumido da escritora nigeriana Chimamanda Adichie: numa das suas participações no TED que tem como título “O perigo da História Única”, ela diz que “as nossas vidas, as nossas culturas, são compostas por muitas histórias sobrepostas”. Muitas vezes estas histórias com apenas uma versão pode nos levar a construir uma identidade baseada no erro.
Durante mais de duas décadas, jovens da minha geração e crianças da nova geração não têm a mínima noção de quem foi Jonas Savimbi – eu próprio demorei mais de 18 anos para realmente conhecer um pouco da história deste homem.
Devemo-nos orgulhar de todos os que lutaram pela independência de Angola, mesmo que tenham cometido erros – o que é completamente normal –, e se não for então que atire a primeira pedra quem nunca errou.
A primeira pergunta que fiz durante a minha aprendizagem sobre Savimbi foi: “Quantas pessoas são necessárias para se começar uma luta?”. Acredito que a resposta seja duas pessoas no mínimo, então talvez não sejam só a UNITA ou o Savimbi culpados, porque até quanto sei, não foram só as tropas da UNITA que colocaram as minas em quase todo território nacional. Uma guerra é sempre devastadora, e todos os participantes devem ser igualmente culpabilizados.
Durante mais de duas décadas, Angola viveu num regime, com um ditador disfarçado de Winston Churchill.
Durante mais de duas décadas, Angola viveu uma ditadura disfarçada de democracia.
Durante mais de duas décadas, Angola teve um ditador e um sistema político fracassado que supostamente começou como comunista e acabou afogado no capitalismo.
Durante mais de duas décadas, Angola teve um regime que escondeu (de todos!) o verdadeiro contributo dos grandes heróis nacionais.
Durante mais de duas décadas angola viveu num regime de partido único.
Em conclusão,
“O vosso futuro não depende de mim, depende da vossa coragem”
Jonas Savimbi foi um monstro? Sim, mas também foi um herói.
Jonas Savimbi foi um monstro? Sim, mas não foi o único.
Jonas Savimbi foi um monstro? Sim, mas também lutou e sofreu para conseguir a independência de Angola.
Jonas Savimbi foi um homem que vai muito além do que a criação da UNITA, do que a guerra ou do que os erros que cometeu. Jonas Savimbi foi um guerreiro, um herói e que merece o devido reconhecimento.
Graças à Internet, hoje temos acesso a imagens inéditas e que em cada vídeo, cada comício e cada palavra, passamos a conhecer um patriota que queria o melhor, mas que a sua ambição fez com que cometesse erros que acabaram por nos prejudicar a todos.
“Quanto mais longe você conseguir olhar para trás, mais longe você verá para frente” – Winston Churchill
Pedro Bento, em "O Que Dizem os Meus Olhos"
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