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Black Lives Matter, o movimento de que todos falam (e eu também)


Sou angolano. Não precisava de escrever isto para me identificar, mas assim já sabem o meu tom de pele, do qual sou imensamente orgulhoso (e não estou a ser racista com os brancos). Sempre lidei bem com o preto da minha cara, dos meus braços, do meu tronco, das minhas mãos, dos meus pés, das minhas pernas. Não me venham com o "castanho"... preto é preto! Sei que essa teoria do "castanho" é para não ofender o visado, mas acaba por ser pior esse preconceito do "castanho". Nós, africanos, sempre ouvimos a palavra "preto" e relativizar não vale a pena.
Mas atenção: não há razão para chamar "preto" ou "castanho". Cada pessoa recebe um nome à nascença. Se não sabes, pergunta. "Preto" é associado a racismo e esse tema está tão em voga nos últimos tempos. Começou com George Floyd. Mais um negro que é morto pela polícia na América, algo que já se torna frequente desde Martim Luther King - "I have a dream", lembras-te?. Mas vivemos numa era digital em que basta uma publicação para que algo se torne viral e foi o que aconteceu.
Se aquela pessoa, com aquele telemóvel que tinha uma câmara, não tivesse carregado no botão "gravar" passaria tudo em branco, mas não deixo de condenar aquelas pessoas que assistiram a tudo e nada fizeram para impedir que aquele polícia fosse cruel com um ser humano. O sangue dele é da mesma cor que o meu e o teu.
As imagens tornaram-se polémicas e a imprensa apressou-se a descobrir o passado do falecido. Respeito o trabalho dos jornalistas, que saberiam que milhões iriam clicar na matéria divulgada na Internet, mas os alegados crimes cometidos por Floyd não justificam o seu fim trágico. "Ah, afinal não é santo nenhum". Mas quem é santo? Conheces alguma pessoa que esteja num altar? Nem Deus que é Deus agradou a todos...
De tudo isto, surgiu o movimento "Black Lives Matter" ("Vidas Negras Importam", em português). Ou melhor, ressurgiu. Pode parecer ignorância, mas não consigo entender bem esse movimento. Foi criado em 2013 com o objetivo de lutar contra a violência exercida sobre pessoas negras. Contraditória é a violência que assiste nestas manifestações. Infelizmente nós, os seres humanos, deixamo-nos levar pela raiva e fazemos as coisas sem pensar. Mas muitas dessas agressões são incentivadas por elementos infiltrados.
Em conclusão, considero que a mentalidade dos racistas não muda pela existência de movimentos, até porque sempre houve movimentos que lutaram contra o racismo e poucos surtiram efeito. Agora: é um movimento necessário? Diria que sim, até porque é importante existir este 'agitar de águas' para captar a atenção para certas questões da nossa sociedade que, infelizmente, teimam em existir em pleno século XXI.

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