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«Eu Tenho o Poder»: Episódio 1 - «Aqueles que choram, não sabem o que é rir»

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Ellie - Oh meu Deus, Oliver! Isso foi fantástico!
Oliver - Pois, foi! Eu bem te disse que terias a melhor foda da tua vida comigo!
Ellie - Eu disse "fantástico" e não a melhor foda da minha vida.
Oliver - Eu sei que tu sabes que foi a melhor da tua vida!
Ellie - Tu és tão idiota!
Oliver - E tu adoras-me por causa disso!

Na verdade, eu sou um idiota. O meu nome é Oliver Thomas. Nasci em Memorial City, antiga capital de North Africa, um país muito rico no Nordeste de África, a sul do Egito e onde o meu pai é Presidente da República. Eu sou bastante famoso aqui em Londres. As pessoas dizem que sou um 'playboy', mas também dizem que sou o mais jovem a tornar-se sócio-senior da Carlan & Day Law Firm, a maior firma de advocacia do Reino Unido e tenho apenas 35 anos. O meu trabalho é manter as celebridades mais famosas de Londres fora da prisão. A bela jovem que me chamou de idiota é a Ellie Sheen, uma atriz super famosa e que acabei de livrá-la de cinco anos atrás das grades por ser apanhada com cocaína no aeroporto e que fique bem claro que não somos namorados - foi apenas sexo!
É segunda-feira de manhã. "Get on up”, de James Brown, música do meu despertador, tocou. Naquela manhã gelada em Kensington, tentei-me despachar o máximo possível para ir trabalhar, mas mesmo assim consegui chegar 30 minutos atrasado ao escritorio. A Lauren, a minha assistente, recebeu-me à porta do elevador, como é habitual.

Oliver - Bom dia, querida!
Lauren - Bom dia, chefe! Consegues sempre chegar atrasado!
Oliver - Não ouvi o despertador!
Lauren - Nunca ouves! A Ruby ligou há alguns minutos a dizer que precisa de falar contigo urgentemente e que não atendes o telemóvel.
Oliver - Merda! Esqueci-me do telemóvel em casa. Liga para ela e passa a chamada para mim.
Lauren - Está bem!
A Ruby Thomas é a minha única irmã, uma diplomata linda e sofisticada. Tem 40 anos, é casada, há dez anos com Ethan Leibel, um advogado muito conhecido em North Africa, e tem dois filhos, a Sarah, de nove anos, e o Elliot, de cinco anos.
Oliver - Bom dia, doutora Ruby! Que honra receber uma chamada sua.
Ruby - Bom dia, mano! Precisamos de conversar.
Oliver - Pela tua voz estou a ver que é um assunto sério.
Ruby - Precisas de voltar urgentemente para aqui. O pai está internado no hospital e os médicos dizem que ele tem apenas algumas horas de vida...
Oliver - O que aconteceu ao pai? Vou apanhar o primeiro avião para aí!
Ruby - Eu conto-te tudo assim que chegares. Tens um avião à tua espera no aeroporto. Despacha-te!
Oliver - Está bem. Vou já.
Encostei-me à cadeira, completamente em choque. Como é que isto foi acontecer? A Lauren entrou na minha sala e ficou preocupada assim que viu a minha cara.
Lauren - O que aconteceu?
Oliver - O meu pai está internado e dizem que tem apenas algumas horas de vida.
Lauren - O Presidente Jacó internado? Não ouvi nenhuma notícia sobre isso. Vou já arranjar passagem para ires no primeiro voo.
Oliver - A minha irmã mandou um avião. Vens comigo?
Lauren - Não sei se posso...
Oliver - Por favor! Eu tenho medo... há vinte anos que não ponho os pés naquela terra.
Lauren - Eu vou contigo! Sempre quis conhecer a terra dos meus pais.
Oliver - Temos que ir agora. Não podemos perder mais tempo!
A Ruby mandou um GULFSTREAM G550, com as cores da bandeira de North Africa. Depois de oito horas de viagem, aterrámos no Union Internantional Airport. Assim que descemos do avião, a Ruby aguardava por mim em frente a um Range Rover blindado com as cores do país.
Ruby - Bem-vindo a casa, meu irmão!
Oliver - Obrigado, mana! Estás magnífica como sempre!
Ruby - Obrigada! Tu também estás muito bonito, querido!
Oliver - Esta é a Lauren, a minha assistente.
Ruby - Prazer, Lauren! A minha filha fala muito bem de ti.
Lauren - O prazer é meu! A Sarah é uma querida!
Ruby - Agora precisamos de ir para o Hospital Marshall! O pai quer falar contigo.
Oliver - Vamos, então.

A caminho do hospital, eu e a Lauren apreciávamos a beleza da cidade de Union com imensos arranhas-céus que dão a impressão que estão quase na lua e um trânsito infernal. A cidade movimentava-se aos nossos olhos. Para mim é a primeira vez que vejo essa cidade. Para a Lauren é a primeira vez que vê a cidade e o país. Vinte minutos depois, chegámos ao Hospital Marshall. Quando saímos do elevador no andar onde o meu pai estava, a minha mãe deu-me um abraço tão forte como se fosse perder-me.
Oliver - Fica calma, mãe! Vai dar tudo certo!
Abigail - Estou feliz por estares aqui, meu amor!
Oliver - Eu estou feliz por estar aqui!
Abigail - Anda, vamos entrar. Ele está à tua espera.
Assim que coloquei os pés dentro do quarto do Hospital Marshall, vi o meu pai deitado e fraco. Travei as lágrimas que já tentavam saltar para fora. Em trinta e cinco anos de vida, nunca vi o meu pai tão frágil e impotente como neste momento. Aproximei-me da cama e coloquei a minha cabeça no seu peito.
Jacó - Meu filho amado. Obrigado por teres vindo.
Oliver - Desculpa por ter vindo só agora, pai!
Jacó - Não peças desculpa. Ouve bem o que vou te dizer. Estou a morrer e tu precisas de assumir o meu lugar na família e no país.
Oliver - Como assim, pai?! Não estou a perceber...
Jacó - Oliver, tens que ser o próximo presidente do nosso povo e levar o país à prosperidade! Só tu podes fazer isso. Tens que honrar o teu avô e a mim que lutamos por este povo. Tens que me prometer.
Oliver - Eu prometo-te, pai! Não te preocupes. Agora descansa.
Jacó - O teu tio vai ajudar-te nessa missão.
Oliver - Está bem, pai...
Jacó - Amo-te, meu filho!
Oliver - Também te amo, pai!
Eu vi o meu pai morrer à minha frente e não pude fazer nada. Fiquei imóvel, sem reação, por mais que tentasse não me caía nenhuma lágrima, porque eu sei que o meu pai não iria permitir que eu chorasse. Como ele dizia:
“aqueles que choram, não sabem o que é rir”

Chegámos à residência presidencial no Litoral de Union City, virada para o Mar Vermelho, com um terreno de 250.000 metros quadrados. A casa principal, com 6.100 metros quadrados, tinha uma fachada inglesa, com telhado de telhas em estilo mediterrânico,  35 suítes, 39 casas de banho, sala de jantar formal com 100 lugares, uma sala de estar principal com 28 metros, uma campo de basquete, uma pista de bowling, dois campos de ténis, três piscinas exteriores, duas piscinas interior, cinema com 50 lugares, sala de pânico em caso de um ataque terrorista, 3 cozinhas, discoteca decorada em cristal, um teatro com 200 lugares, ginásio, dois salões de festas, três heliportos, garagem com 150 carros. Nesse verdadeiro paraíso trabalham mais de 100 funcionários. Assim que desci do carro, a Sarah veio a correr dar-me um abraço.
Sarah - Tio Oli!
Oliver - Como estás grande, macaquinha!
Sarah - Estava a morrer de saudades tuas!
Oliver - Eu também, macaquinha!
Sarah - Queres conhecer a casa?
Oliver - Claro que sim! Ouvi dizer que és a melhor guia de North Africa.
Ruby - Querida Sarah, agora não pode ser. Vamos deixar isso para depois. O tio precisa de descansar.
Sarah - Está bem, mãe! Eu mostro a casa amanhã. Agora vou chamar o Elliot e o pai.
Oliver - Vai lá, querida!
Ruby - Não sei como contar para ela que o avô morreu...
Abigail - Eu conto-lhe, minha filha...
Ruby - Obrigado, mãe! Oliver e Lauren, andem que vou vos mostrar os vossos quartos. Vocês precisam de descansar.

O meu quarto é logo à frente do quarto da Lauren. Tem uma impressionante vista para o Mar Vermelho. Tomei um banho e fui deitar-me. Durante algumas horas rebolei na cama na tentativa de adormecer, mas sem sucesso. Eram duas da madrugada quando liguei a televisão no NA Channel, a principal estação televisiva do país. Uma jornalista bastante atraente e confiante falava sobre a morte do Presidente: "A nossa redação acabou de receber a notícia de que o Excelentíssimo Senhor Presidente Jacó Thomas faleceu ontem às 19 horas no Hospital Marshall, vítima de uma doença crónica. O vice-presidente, Isaac Thomas, falou ao país e decretou uma semana de luto nacional. O funeral está marcado para quarta-feira e alguns chefes de Estado internacional ja confirmaram a sua vinda, como é o caso do Presidente Jacob Zuma, de South Africa".
Fiquei chocado ao saber que o meu pai tinha uma doença crónica. Depois dessa notícia acabei por perder totalmente o sono, saí do quarto e fui caminhar pela casa sem saber exatamente onde ir. Cheguei ao pé da praia e deixei-me ficar por lá. Não demorou muito a sentir a alguém a proximar-se. Era a minha irmã.

Ruby - Sem sono?
Oliver - Sim. Ouvi algo que me deixou assim.
Ruby - O que foi que ouviste?
Oliver - Estive a ver a NA Channel e ouvi que o pai morreu com uma doença crónica. Como é que eu não sabia disso?!
Ruby - Calma! O pai não tinha uma doença crónica. Ele foi envenenado com algo que ninguém ainda descobriu e que foi matando-o lentamente. Achámos melhor ocultar isso até encontrarmos o responsável.
Oliver - Como é que isso aconteceu, Ruby? Existe um assassino dentro desta casa?
Ruby - Não. Não foi ninguém dentro daqui. Foi há uma semana quando ele viajou para Danaul City para iniciar a campanha de candidatura para as próximas eleições.
Oliver - Precisamos de achar o responsável!
Ruby - O mais importante agora é cuidar do povo. Existem vários grupos rebeldes que querem dominar o país. Muitos deles criaram partidos só para disfarce e vão concorrer às eleições. Depois  o tio vai falar contigo sobre isso.
Oliver - Nesse momento não consigo pensar em nada.
Ruby - Eu entendo! Nós todos já estávamos praparados para isso, menos tu. Mas vai ficar tudo bem.
Oliver - Eu sei, mana! Lembraste da nossa casa em Memorial City?
Ruby - Sim!
Oliver - Ainda existe?
Ruby - Agora é um museu com o nome do avô.
Oliver - Sinto saudades de andar a correr de um lado para o outro, enquanto o avô tentava escrever um discurso.
Ruby - Eu também sinto saudades, principalmente quando roubávamos o discurso e ele ficava louco à procura dele.
Oliver - Nós éramos tão maus.
Ruby - Sim, nós éramos mesmo. Agora conta-me uma coisa. A Lauren é tua namorada?
Oliver - Não! Ela é a minha melhor amiga e assistente. Conheci-a há dois anos atrás em Manchester. Ela precisava de um emprego e eu contratei-a. Desde então somos melhores amigos.
Ruby - Precisamos de tirar um visto para ela. Não pode continuar no país sem autorização.
Oliver - Ela é norte-africana. Os pais dela nasceram em Memorial City. Emigraram para Manchester quando ela tinha dois anos.
Ruby - Isso é fantástico!
Oliver - Agora conta-me tu uma coisa. Desde quando é que deixaste de ser professora universitária e agora és deputada?
Ruby - Sabes que sempre adorei política! Mas a verdadeira razão é que o pai pediu que eu representasse o país na União Africana e também sou líder da bancada parlamental do PDNA (Partido Democrático Norte Africano).
Oliver - Então porque é que o pai quer que seja eu a dirigir o país, se tu tens experiência?
Ruby - Tu nasceste para isso, mano! É a tradição da família e cá, entre nós, tu és um idealista e é disso que o país precisa.
Oliver - O pai fez um trabalho maravilhoso. Nós somos a nação africana mais poderosa e rica. Não vejo o que há melhor.
Ruby - Tu não tens ideia de como esse país está. Nós estamos à beira de uma queda enorme. O povo sofre por falta de dinheiro e precisam de uma vida melhor. Os radicais estão a chegar às cidades. Avizinha-se uma guerra e só tu podes impedir isso. O povo não sabe em quem acreditar.
Oliver - Não sei se sou capaz...
Ruby - Vai dormir. Amanhã temos um dia cheio de coisas. Tens que preparar o discurso para o funeral e o tio vai ajudar-te a entender tudo.
Dei um beijo na testa da Ruby e voltei a caminhar até ao meu quarto. Deitei-me na cama e depois de longos minutos acabei por adormecer.

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